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2/10/2006

Miséria, quando as lembranças nos levam as lágrimas.

Estava eu assistindo a uma reportagem sobre a miséria nas estradas brasileiras mais especificamente na Bahia. Crianças pedindo comida a todo tipo de pessoas que passavam na estrada. Eu posso garantir uma coisa pra você querido leitor, eu vi de perto esse desespero e a tv mostrou apenas a ponta do iceberg.
Notamos que aquelas pessoas têm uma limitação no enxergar a vida. Mas é claro, eles não tem tempo pra pensar na vida. Pude ver isso pessoalmente quando viajei para o nordeste, foi em 1993, eu tinha 10 anos e quando passava a 30km/h naquelas estradas esburacadas do sertão, pude ver, várias vezes crianças com pás. Elas recolhendo areia do “acostamento” e jogando nos buracos na estrada. Isso em um sol de quase 40 graus.
Enquanto passávamos, elas se atiravam para cima do carro como feras famintas em um ataque desesperado, dizendo: “Me dá comida!”. Mas, uma das crianças me chamou muito mais atenção! Foi uma menina que deveria ter no máximo seis anos, Linda, mas com sua beleza e inocência marcada pelo sofrimento. Era uma garota loira de olhos azuis. Parecia com aquelas crianças lindas que eu só tinha visto pela TV. Ela disse uma só frase: “Moço me dê uma Bolacha! Tô com muita fome!”. Eu pude ver o futuro dela como um filme em minha mente. E acredite, não foi um conto de fadas. Naquele instante eu parei e nem pensei, se pudesse daria tudo que tinha, até minha vida para aquelas crianças não passarem fome.
Eu vi a miséria de perto! Eu vi um bebê nos braços de uma mãe ambos estavam como aquelas pessoas na Somália. Acredite, ver aquilo pessoalmente é uma coisa horrível! Meu Deus eles estão vivos? Você podia ouvir a fraca e ofegante respiração da pessoa fraca lutando contra o corpo para não morrer. O bebê? Nem chorava mais, tentando sugar as ultimas gotas de leite que ainda restavam no peito murcho da mãe agonizante! Essa cena é indescritível querido leitor. Quando chegamos ao nosso destino, a Paraíba, terra de meu pai, fomos visitar uma irmã dele. Quando estávamos chegando na casa dela um aglomerado de crianças corriam atrás do carro. Entramos na casa de minha tia e lá estava ela vindo, se arrastando como um animal ferido, prestes a morrer, mas, lutando até o último sopro de vida. Sofria de uma doença rara, a degeneração dos músculos do corpo. Conheci também uma prima, que grávida estava, parecia que ela tinha um tipo de retardo mental, mas mesmo com 10 anos de idade percebi que era fruto de desnutrição. Conheci também um primo, que tinha um distúrbio Psiquiátrico. Era uma miséria, não precisava pensar muito pra ver o futuro de todos que ali estavam. Sabíamos que não tinha solução. Então meu pai deu para minha tia uma quantia razoável de dinheiro, para amenizar por um período médio a vida de todos.
Mas eu vi uma coisa naquelas pessoas que até então nunca tinha visto. A pureza em suas almas. A sinceridade, a satisfação de nos receber e dividir o que não tinham nem para si.
O sorriso, o brilho nos olhares. Por um instante parecia que eles tinham esquecido a fome! Fomos embora, mas as cenas fortes ficaram para sempre, acredite, ver tudo isso me ajudou na formação da minha personalidade. Tudo isso me ajudou também a amadurecer anos em menos de um mês.
Tornei-me mais humano! Querido leitor, você já sentiu fome?

Pensamento do dia: A Fome
A fome não dói somente na barriga, mas, dói na alma, destruindo a dignidade do ser humano.

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